março 03, 2006

Dicionário Cronológico de Autores Portugueses

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Hoje, na Sábado, Pacheco Pereira queixa-se de que o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas mandou retirar da Rede (Internet) as entradas (parciais) do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses que foi publicado há uns anos em parceria com a Europa-América, de Tito Lyon de Castro.
Pacheco confessa-se consumidor da edição em papel mas alega que sendo a obra praticamente impossível de encontrar nas livrarias não se entende como “ um organismo do Estado diminui a informação disponível para todos, sem a explicação exigível, se é que ela existe”.
Também Francisco José Viegas e Eduardo Pitta se referiram a esta medida mostrando-se ambos inconformados com "as politiquices" que possam ter justificado esta decisão.
Eu fui, com muita honra e ainda muito jovem, um dos cerca de cinquenta autores/colaboradores da obra que, de facto, ficou imcompleta, mas ainda assim é de um valor incalculável e, como não podia deixar de ser, junto-me também ao coro de assobios.
Trabalhei, primeiro, sob a coordenação de Eugénio Lisboa e, depois, de Ilídio Rocha, sempre superiormente coadjuvados pela Ana Madureira, pela Maria Teresa Arsénio Nunes e pela Maria João Martins.
Redigi dezenas de entradas e em alguns casos entrevistei pessoalmente os autores sobre quem escrevi.
Lembro-me, entre muitas outras e de memória, das entradas sobre Artur Varatojo, Diamantino Viseu, Embaixador Nataniel da Costa, Luís Francisco Rebello, Bernardo Guedes da Silva, Maria de Lurdes Modesto e, em particular, as do meu Reitor Prof. Justino Mendes de Almeida e do Prof. Fernando Luso Soares com quem, à cause do Dicionário, fomentei uma forte amizade.
E não se pense que os colaboradores do Dicionário eram todos ilustres desconhecidos como este vosso criado, de facto, na sua ficha técnica encontram-se, entre os vários autores, nomes como os de Eduardo Pitta, Ivan Nunes, Ilídio Rocha, João Pedro George, João Pinharanda, José do Carmo Franscisco, Luiz Francisco Rebello, Nuno Júdice, Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Dacosta e Albano Martins.
O Dicionário que soma, nos seus seis volumes publicados, mais de 5000 entradas de autores, constitui no seu conjunto a mais importante fonte de informação bibliográfica disponível de autores portugueses de literatura e de ciências humanas e deve muito do seu resultado final a esse conjunto de colaboradores que, pela diversidade dos seus conhecimentos e diferentes técnicas de expressão escrita, enriqueceram enormemente uma obra fundamental que agora, pelos vistos, o IPLB quer silenciar.
Porquê?
Dão-se alvíssaras a quem souber responder.

P.S. A próposito: Para quando a edição do 7º Volume que está pronto e concluído há séculos?

Publicado por Patrick Blese às 02:00 AM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 17, 2006

Dicionário do Diabo, Ambrose Bierce ( Letra A )

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A Tinta da China acabada de editar a obra maior, uma colectânea de artigos que publicou em jornais nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, do excepcional contista e cronista norte-americano Ambrose Bierce, também conhecido por "bitter Bierce" tal o sarcasmo e acutilância da sua escrita.
Bierce era amigo e rival de Mark Twain, com quem manteve acessas polémicas depois da Guerra Civil, e transformou o seu Dicionário do Diabo, onde "assume o papel do Diabo para subverter o sentido que habitualmente atribuímos às palavras", num clássico da literatura americana.
Este senhor que assina, magistral e superiormente, o prefácio da obra afirma que " este dicionário é um manual de guerrilha contra o conformismo", eu assino por baixo.

Alguns exemplos do que encontrará na obra ( Letra A):

ABANDONADO: Sem favores para conceder. Desprovido de fortuna.
AFRICANO: Um preto que vota no nosso partido.
ALEGRIA: Uma sensação agradável provocada pela contemplação da miséria alheia.
ALIANÇA: Em política internacional, consiste na união de dois ladrões com as mãos tão afundadas nos bolsos um do outro que já não conseguem roubar um terceiro separadamente.
ALÍVIO: Acordar cedo, numa manhã fria, e descobrir que é domingo.
AMNISTIA: A magnanimidade do Estado para com aqueles transgressores que seria demasiadamente caro castigar.
ANGÚSTIA: Uma doença provocada pela exposição à prosperidade de um amigo.
APÁTICO: Casado há seis meses.
ARREPENDIMENTO: Um sentimento que raramente incomoda as pessoas antes de começarem a sofrer.

Publicado por Patrick Blese às 12:01 AM | Comentários (16) | TrackBack

dezembro 06, 2005

Fareed Zakaria, O Futuro da Liberdade, 2004

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Fareed Zakaria nasceu na Índia, é americano, Director da Newsweek e antigo editor da Foreign Affairs.
Neste livro alerta para a expansão da democracia no mundo, 119 países hoje, 62% do total, mas adverte que esta não caminha associada ao “liberalismo constitucional”, que surge definido como o primado da lei, a liberdade de expressão e religiosa e os direitos das minorias.
Em suma, diz que a democracia está a ganhar terreno no mundo, mas a liberdade não.
No mundo, o problema fundamental é que a emergência da democracia não produziu o correspondente aumento de liberdade. Estamos a assistir em várias partes do mundo, da Rússia à Venezuela, passando pela Autoridade Palestiniana, ao surgimento de uma criatura estranha - o autocrata eleito. No mundo árabe, em particular, vemos sociedades comprimidas entre ditaduras repressivas e fanatismos das grandes massas.
Haverá uma saída?
Há.
Zakaria chama-lhe a reposição do equilibrio entre liberdade e democracia e mostra como democracia liberal tem de ser mais eficaz e mais relevante na nossa época, por outras palavras, o novo desafio é fazer o mundo seguro com democracia.

O livro recomenda-se vivamente.

Uma análise do livro, aqui.

Publicado por Patrick Blese às 02:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 04, 2005

Maria João Avillez, Solidão e Poder, 1981

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Editado pela extinta Cognitio, é uma biografia "não exaustiva" mas indispensável para quem queira entender o homem, por trás do político.

Publicado por Patrick Blese às 09:05 PM | Comentários (1) | TrackBack

Cavaco Silva, Política Económica do Governo de Sá Carneiro, 1981

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Edição da Dom Quixote, pela pena do então Ministro das Finanças e do Plano que esteve no centro da política económica do governo de Sá Carneiro.

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Publicações Europa-América, Um olhar próximo, 2000

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Livro publicado na passagem do 20º aniversário da morte de Sá Carneiro com depoimentos e revelações inéditas acerca do homem e do estadista.
Depoimentos, entre outros, de Alberto João Jardim, Cavaco Silva, Barbosa de Melo, Pedro Roseta, Soares, Machete, Marcelo Rebelo de Sousa, Mota Amaral e Freitas do Amaral.

Publicado por Patrick Blese às 08:57 PM | Comentários (0) | TrackBack

José Miguel Júdice, Pensamento Político de Sá Carneiro, 1982

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Edição da Verbo, de Abril de 1982, onde a convite da Comissão Política Distrital do Porto do PSD, Júdice percorre, com grande autoridade, pela proximidade que teve com o estadista, o seu pensamento político desde os movimentos católicos juvenis até ao projecto da AD.

Publicado por Patrick Blese às 08:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sá Carneiro, Impasse,1978

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E agora, que já tenho scanner em casa, é hora de o experimentar referindo alguns livros para quem quiser saber mais sobre Sá Carneiro.
Neste Impasse, edição da Macroplan, o próprio esclarece as razões do seu afastamento da Direcção do PSD, na sequência do voto a favor do partido, Sá Carneiro entendia que o partido se devia abster, à Lei da Reforma Agrária.

Publicado por Patrick Blese às 08:47 PM | Comentários (8) | TrackBack

outubro 21, 2005

Just in case

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Se dúvidas houver, neste pequeno livro, da dupla Canotilho/Vital, encontra tudo: O sistema de governo; O «semipresidencialismo» da CRP; O estatuto e os poderes do Presidente da República; O Presidente da República e a função de orientação política; O Presidente da República e o Governo; O Presidente da República, a política externa e a política de defesa nacional.
Mas encontrará, principalmente, aquilo que se pode designar como os poderes explícitos e implícitos do Presidente da República.

Publicado por Patrick Blese às 04:35 PM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 07, 2005

Claramente uma grande escritora

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Através do Tese e Antítese cheguei até ao Esplanar, cujo autor, João Pedro George, está de parabéns pela extraordinária sucessão de posts que se deu ao trabalho de escrever sobre a “obra literária” de Margarida Rebelo Pinto.
A leitura atenta dos mesmos resulta num acidente, de dimensões incalculáveis, para a conceituada “escritora” já que João Pedro George não poupou nas investigações e esmaga, literalmente, as pretensões da senhora.
Ora, a mim, parece-me que os posts de JP George são de uma extrema injustiça: é que quem ler a obra completa de MRP só pode estar com uma tremenda bebedeira, o que, aliado à enorme probabilidade da própria “autora” também estar embriagada, quando escreveu as “obras”, faz com que, neste caso, “escritora” e “leitores” estejam imbuídos do mesmo espírito e se mereçam uns aos outros.

Publicado por Patrick Blese às 12:44 AM | Comentários (10) | TrackBack

outubro 03, 2005

Eu já tinha avisado que o homem era bom

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Já aqui chamei a atenção para o paralelismo entre Os Cús de Judas, de Lobo Antunes e Os Bichos do Mato, de José Ferreira Marques.
Agora é o site da C.M. das Caldas da Rainha, edilidade superiormente liderada pelo meu velho conhecido Dr.Fernando Costa, que vem comunicar que, numa cerimónia na Biblioteca Pública das Caldas da Rainha, foi discutida " A Guerra Colonial na Literatura Portuguesa", tendo por base a obra de 6 autores, a saber: Lobo Antunes, Manuel Alegre, Lídia Jorge, J.Manuel Saraiva, Alexandre Marte e, claro, José Ferreira Marques.
Parabéns ao bloguista por esta distinção.

Publicado por Patrick Blese às 12:28 AM | Comentários (2) | TrackBack

julho 12, 2005

Nunca é tarde para dar a mão à palmatória

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Não me passou despercebida a morte do Dr. Corino de Andrade.
Na altura, no entanto, não lhe fiz qualquer referência.
Recordo-o agora, pela pena brilhante de Lobo Antunes, que na última Visão assina uma crónica, infelizmente sem link disponível, absolutamente deliciosa, pela simplicidade e beleza estilística, intitulada: “O Amigo do meu Pai”.
E a verdade é que as últimas crónicas de Lobo Antunes na Visão, me têm aproximado de tal maneira da sua escrita, eu que não sou grande apreciador do homem, que já é a página da sua crónica, a primeira, que procuro quando semanalmente a revista me chega às maõs.

Publicado por Patrick Blese às 03:48 AM

junho 21, 2005

Anos 50: Os defeitos condenáveis nos subordinados

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No mesmo livro, são abordados os Defeitos Condenáveis nos Subordinados, e que, segundo o eminente doutrinador, são entre outros, os seguintes:

Espírito intriguista: é um defeito desgraçado e até catastrófico.
Espírito adulador: o empregado que é costume designar por engraxador ou manteigueiro torna-se, sempre, antipático aos colegas.
A adulação é um vício pernicioso.
Todos quanto desejam subir sem esforço recorrem à lisonja servil e untuosa.
Hipersensibilidade: eis aqui um defeito, que indispõe e irrita.
O empregado hipersensível ofende-se com tudo, susceptibiliza-se a despropósito de tudo.
Apatia: esta é a forma mais característica da preguiça.
E há criaturas tão obstinadas no seu horror ao trabalho, que se cansam a procurar maneira de nada fazerem.
Ora, na verdade, a inactividade, além de fatigar tanto como o trabalho, ainda tem o inconveniente de complicar, dificultar e atrasar os serviços.
Quem não quer fazer nada, quem quer preguiçar, não se emprega.
Preguiça: eis aqui outro defeito lastimoso.
Quando um empregado interessa a uma instituição é para trabalhar e não para preguiçar ou para fazer cera, numa atitude mais ao menos escandalosa.
Jocosidade: é um defeito sumamente condenável.
O indivíduo com prosápias a engraçado, torna-se um flagelo no ambiente onde trabalha.

Atente-se, particularmente, no acerto destes três últimos, condenáveis e imperdoáveis, defeitos:

Irrequietismo: eis aqui outro defeito que urge contrariar.
Os empregados não devem andar sempre a pedir para mudar de secção.
Que se faça um pedido destes uma vez na vida , com fundamento, está bem, está certo.
Mas que todos os meses, por irrequietismo, se solicitem alterações destas, isso é que não pode aceitar-se.
Vida irregular: há pessoas que dizem: “ O meu patrão nada tem com a minha vida particular”.
Ora, isto não é verdade, o empregado que perde as noites em tabernas e lupanares, e vai para o trabalho falto de sono e com os nervos escangalhados, é tão ladrão como o que rouba dinheiro.
Sujidade: há empregados que não prestam atenção a este facto.
Julgam que, com lábia ou até com competência, podem suprir a falta de higiene corporal.
Não é bem assim.
Um individuo que não toma banho regularmente, que se apresenta sujo e mal cheiroso, causa repugnância.
Em certas actividades, torna-se, mesmo, indispensável que os empregados se apresentem irrepreensivelmente limpos.
Mas, de um modo geral, não podem, hoje, admitir-se empregados pouco amigos do asseio.

Publicado por Patrick Blese às 07:24 PM

As qualidades exigíveis aos subordinados nos anos 50

(0194)
Editado pela Editorial Domingos Barreira, no âmbito da colecção Biblioteca de Orientação Profissional, descobri em mais uma peregrinação alfarrabista, o livro Arte de Obedecer, de Mário Gonçalves Viana, que conheceu luz, nos idos de 1954.
Trata-se de um manual de conduta que qualquer pessoa com pretensões a fazer carreira numa qualquer empresa ou a ser funcionário público, deveria, à época, dominar.
Toda o manual é digno de leitura atenta, mas a mim interessou-me particularmente a parte 3 do enorme catrapázio, onde se enumeram as Qualidades Exigíveis aos Subordinados,
destacaria, muito resumidamente, as seguintes:

Delicadeza: esta é uma qualidade mestra, indispensável a todo o empregado que se preze.
Ainda que o chefe seja grosseiro, violento ou desbocado, nunca o subordinado deverá cair em tais excessos.
O patrão, pelo facto de o ser, pode permitir-se ao “luxo” de proferir quaisquer palavras inconvenientes ou de tomar quaisquer atitudes incorrectas, ao empregado, porém, já não cabe semelhante liberdade.
Actividade: Um empregado que faz tudo arrastando os pés, e lentamente, aborrece e enerva.
Prudência: o empregado deve ser cauto e prudente, de maneira a evitar quaisquer atitudes susceptíveis de desagradarem aos chefes.
Está claro que urge não cair nos vícios da indecisão e da pusilanimidade, para os quais pode degenerar esta virtude, pois na prudência, ir além de certos e determinados limites é loucura.
Sobriedade de linguagem: o subordinado deve falar pouco.
É profundamente verdadeira a sentença da velha sabedoria popular: Quem muito fala pouco acerta.
Os chefes razoáveis e inteligentes não gostam dos empregados faladores, que dão opinião acerca de tudo, e que tudo comentam levianamente.
O falar desabusado e fora de propósito dá uma lastimosa impressão de superficialidade.
Quão irritante se torna aquele que pretende dizer, constantemente, graças e graçolas!
Perspicácia: o subordinado deve adivinhar os pensamentos do chefe.
Humildade: o subordinado não deve tomar atitudes espectaculares, tão pouco presumir-se esperto e menos ainda deve querer passar por tal aos olhos de terceiras pessoas.
Serenidade: os chefes querem empregados que não percam a transmontana com facilidade.

Publicado por Patrick Blese às 07:15 PM

junho 08, 2005

Há feirantes na Feira do Livro? Nem vê-los!

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“Os livros estão pela hora da morte” e “pechinchas foi chão que deu uvas”, são as principais conclusões que todos quantos visitaram a Feira do Livro puderam retirar.
Sobre as minhas compras, mesmo correndo o risco de desvendar uma parte considerável da alma - haverá alguma coisa mais intima do que conhecermos as leituras de uma criatura? – sempre posso dizer que
me aviei com o clássico O Velho e o Mar, que valeu o Nobel a Hemingway, da Editora Livros do Brasil, a troco de 10 euros, mal gastos, na exacta medida em que já possui este livro mas, inadvertidamente, numa das minhas inúmeras mudanças, o exemplar em causa teve que dividir uma caixa de papelão com uma garrafa de azeite e com umas postas congeladas de espadarte e saiu de lá transformado, justamente, em salada de espadarte, provavelmente, o mesmo que o velho Santiago deixou escapar a favor de um grupo de tubarões;
Do stand da Ulisseia, trouxe Viagem ao Fim da Noite, de Céline, obra que na altura foi considerada um exemplo de uma nova consciência de esquerda, supra ironia, pois como se sabe, a intelligentsia progressista logo se arrependeria do seu excessivo e prematuro entusiasmo, face à surpresa, de sentido inverso, que representaram a Morte a Crédito e Bagatelles pour un Massacre.
Ideologias à parte vale mesmo a pena ler Céline, dono de uma pena acutilante, desesperada, sofrida, torrencial e de fortíssima adjectivação.
Limparam-me 15, 99 euros.
Arre!
Próxima paragem: o stand da Editora Civilização, onde enterrei mais 28 euros, no Gulag, de Anne Applebaum, jornalista do Waschington Post, que nesta volumosa obra estabelece a cronologia dos campos estalinistas e a lógica subjacente à sua criação, ao seu alargamento e à sua manutenção.
Um relato bem documentado do sistema de trabalhos forçados desde a sua criação até à sua extinção por Gorbatchev que serve para que o Gulag não se apague da memória histórica da antiga União Soviética e do Ocidente.
A Idade do Ouro, do excepcional romancista histórico que é Gore Vidal também não me escapou, a edição é da Editorial Notícias e lá voaram mais 20,50 euros.
A seguir fui à Dom Quixote e por 12 euros não deixei por mãos alheias a Poesia Completa de Cesário Verde.
Na Guimarães arrematei o Cândido, de Voltaire e o Acuso…, de Zola, posto que segui 16,60 euros mais pobre rumo ao stand da Oficina do Livro, onde não resisti: confesso que não sou grande apreciador de Pedro Paixão, embora desgraçadamente lhe conheça a obra, mas acabei por comprar Girls in Bikini, é que por 2,99 euros, a única pechincha que encontrei na feira, para mais com aquela capa, não poderia fazer vista grossa.
Para terminar em desgraça suprema e com a intenção deliberada de serem lidos sob o efeito de várias garrafas de Old Parr, adquiri na Editorial Inquérito: Poder e Terror; A manipulação dos Media e Duas Horas de Lucidez, todos do alucinado Chomsky, para quem Lionel Jospin, Blair e Schroder são políticos de Extrema- Direita.
É verdade que tiveram o desplante de me cobrar 26,20 euros, mas meus caros, é este o preço de entendermos melhor a cartilha do Bloco de Esquera, ou antes, da Esquerda que pensa à Esquerda, mas vive à direita.
E agora, estes meus novos companheiros, vão todos para a fila de espera em cima da mesinha de cabeceira onde ainda têm, pelo menos, 5 livros à frente.
O Chomsky, esse, fica para o fim, que a boa vontade tem limites.

Publicado por Patrick Blese às 01:00 AM

junho 01, 2005

Gabriel García Marquez, O Aroma da Goiaba, 2005

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Fiz aqui alusão a uma fantástica entrevista concedida por Plínio Apuleyo Mendoza, o actual embaixador da Colômbia em Portugal, em que se falou essencialmente da sua amizade, de toda uma vida, com Gabriel Carcía Marquez.
Ontem, n` O Botequim do Rei, foi apresentado o livro O Aroma da Goiaba, assinado pela dupla: Gabo-Plínio.
A história do livro remonta a 1982, quando Plínio falou ao seu velho amigo Gabo na possibilidade de lhe fazer uma entrevista que seria, depois, publicada em livro.
A proposta que a Plínio parecera, naquele momento, muito difícil de concretizar, uma vez que Garcia Marquez " não gosta de entrevistas “, foi, afinal, surpreendentemente acolhida com entusiasmo pelo escritor.
Gabo achou “ uma ideia do caraças ” porque “ dessa forma “ poderia “ dar por despachadas para sempre as entrevistas “.
Assim nasceu o livro que, pasme-se, duas décadas depois chegou ontem a Portugal.
Na entrevista, Garcia Marquez, aborda vários temas, mas faz essencialmente a apologia da amizade, dos filhos e da família.
Às sucessivas perguntas de Plínio sobre esses temas Gabo vai respondendo:
“ As amizades essenciais na minha vida foram sobrevivendo a todas as tempestades.”
“ Faz parte do meu carácter: nunca, em circunstância alguma, esqueci que na verdade da minha alma não sou ninguém mais nem serei ninguém mais do que um dos dezasseis filhos do telegrafista de Aracataca.”
“ Nos últimos 15 anos, quando a fama me caiu em cima como algo não procurado e indesejável, o meu trabalho mais difícil foi a preservação da minha vida privada. Consegui-o, mais restringida e vulnerável do que antes, mas o suficiente para que caiba nela a única coisa que afinal me interessa de verdade na vida, que são os afectos dos meus filhos e dos meus amigos.”
“ As minhas relações com os meus filhos são excepcionalmente boas, como tu dizes, pela mesma razão que te disse para a amizade. Por muito consternado, exaltado, distraído ou cansado que esteja, sempre tive tempo para falar com os meus filhos, para estar com eles desde que nasceram. Em nossa casa, desde que os nossos filhos têm o uso da razão, todas as decisões se discutem e se resolvem de comum acordo. Tudo é governado com 4 cabeças. Não o faço por sistema, nem porque pense que é um método melhor ou pior, mas porque descobri, de repente, quando os meus filhos começaram a crescer, que a minha verdadeira vocação é a de pai. Gosto de o ser, a experiência mais apaixonante da minha vida foi a de ajudar os meus 2 filhos a crescer, e creio que o que fiz melhor na vida não são os meus livros, mas sim os meus filhos. São como 2 amigos nossos, mas criados por nós mesmos.”
Pergunta Plínio: “ Partilhas os teus problemas com os teus filhos e com a Mercedes? “
Responde Gabo: “ Se os meus problemas são grandes, trato de os partilhar com eles. Se são muito grandes, é provável que recorra além disso a algum amigo que me possa ajudar com as suas luzes. Mas se são demasiado grandes não os partilho com ninguém”
(…)
“ O resultado, como é evidente, é uma úlcera do duodeno que funciona como uma campainha de alarme,e com a qual tive que aprender a viver, como se fosse uma amnte secreta, difícil e por vezes dolorosa, mas impossível de esquecer. “
Pois…

Publicado por Patrick Blese às 12:56 PM

maio 13, 2005

Gabriel García Márquez, Memórias das minhas putas tristes, 2005

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Uma leitura altamente recomendada sobre velhice e amor.
Márquez, com 80 anos e a lutar há 20 contra um cancro, outra vez em grande forma.

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
-Hoje sim.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, desapareceste vinte anos e voltas para pedir impossíveis.

Publicado por Patrick Blese às 12:37 AM

abril 27, 2005

Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, 1967

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Acabando de assistir a uma fantástica e sentida entrevista do Senhor Embaixador da Colômbia no nosso país, amigo pessoal de Gabo, lembrei-me desta passagem, sempre actual, da obra prima do Mestre, quando a páginas tantas, o coronel Aureliano Buendía, enquanto aguarda a hora de se colocar diante do pelotão de fuzilamento, inicia este diálogo:

" - Diz-me uma coisa, compadre: porque lutas?
- Porque tem de ser, compadre - respondeu o coronel Gerineldo Márquez. - Pelo grande Partido Liberal.
- Que sorte tens em sabê-lo - respondeu ele. - Eu, pela parte que me toca, só agora me apercebo que luto por orgulho.
- Isso é mau - disse o coronel Gerineldo Márquez.
O coronel Aureliano Buendía ficou divertido com o seu sobressalto. "Naturalmente", disse. "Mas em todo o caso é melhor isso do que não saber por que se luta." Olhou-o nos olhos e acrescentou a sorrir:
- Ou lutar como tu, por uma coisa que não significa nada para ninguém.

Publicado por Patrick Blese às 12:01 AM

abril 26, 2005

José Ferreira Marques, Bichos do Mato, 2003

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Os romancistas sabem que o tempo joga a seu favor.
Ainda que se tenham 70, 80 ou 90 anos, é sempre possível começar e surpreender os leitores.
Quando começam tarde, o que lhes falta em experiência literária, em ritmo e em cadência, sobra-lhes em memórias e experiências de vida, condições resultantes da vivência e da observação da História.
Não é o que se passa, no entanto, com José Ferreira Marques que tendo começado tarde, mas ainda assim antes dos 60, apresenta uma escrita fluente, com forte ritmo narrativo e de uma qualidade estética indiscutível.
Muito provavelmente escreverá desde sempre mas só agora deu a conhecer ao público a sua veia literária.
Este é o primeiro romance publicado pelo autor e editado pela pouco notória Palimage.
Em Os Bichos do Mato, o autor assume um olhar atento, mas despolitizado sobre a Guerra do Ultramar.
Diria que se trata de uma crónica de guerra, ficcionada, mas amplamente autobiográfica – o que é absolutamente corrente e vulgar nas primeiras obras da maioria dos autores consagrados – já que se baseia em larga medida na experiência de guerra do autor, que fez a guerra na linha da frente, muitas vezes debaixo de fogo.
Trata-se de uma bela história, fluida, excepcionalmente bem escrita, com ritmo narrativo elevado, que capta do princípio ao fim a atenção do leitor.
Com grande acutilância vamos seguindo o percurso do Hilário, do Aníbal, do Romeu e do Martinso autor - e do Capitão Silva.
Apreciei, particularmente, dois capítulos, intitulados: "Duques…"; e "Aguarelas"; onde se fala de Henrique do Vale e da sua família.
É curioso fazer o paralelismo entre esta obra e a primeira de Lobo Antunes, Os Cús de Judas, igualmente baseada numa experiência de guerra do autor e, se o leitor se der ao trabalho de fazer essa comparação, não se surpreenda se no final tiver preferido este Ferreira Marques, àquele Lobo Antunes.
Foi o meu caso!
Este Os Bichos do Mato, merecia figurar no espectro literário português de 2003, no Morro da Sentinela, que como o autor explica numa passagem do livro, era uma posição elevada com um amplo campo de visão.
Mas como também explica mais à frente “ o ângulo de tiro não era o mais favorável”.
O que tenho a certeza, é que este livro, com o Marketing certo e a distribuição apropriada, teria vendido como tremoços!
Vamos lá esperar pelo segundo que, ao que sei, está a chegar.
Entretanto, e atendendo à data, numa atitude verdadeiramente revolucionária, tomo de assalto o A Forma e o Conteúdo, blogue do autor do livro e faço minhas duas fotos que por lá foram editadas e que ajudarão a abrilhantar este post,com duas passagens do livro:
Quedas do Rio Lucala, Angola
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"O rio multiplicava-se em centenas de cascatas, escorrendo em tons vários de azul e verde. A água parecia nascer das raízes das árvores que se equilibravam entre as fragas. Uma pequena nuvem de vapor pairava sobre a caldeira, humedecendo o ar. O ruído ensurdecia."
Mariponte,Angola
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"Picada fora, subindo e descendo, só se ouvia o martelar do motor do unimogue."


Publicado por Patrick Blese às 01:50 AM

abril 14, 2005

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht, 2004

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Início com este postal mais uma rubrica aqui no estabelecimento.
Este post escrevi-o e foi editado na Senhora do Monte, no ínicio do ano, rezava assim:

Confesso que estava muito curioso.
Toda a gente fala de Gonçalo M. Tavares.
Não é caso para menos, tem 34 anos e 14 livros publicados.
Trata-se de uma produção avassaladora, principalmente, se levarmos em linha de conta que aos 30 anos ainda não tinha publicado nenhum.
Isto quer dizer que publicou 14 livros nos últimos 3 anos !?!?
E só no último ano publicou 7 !?!?
Ora, até eu que não sou escritor, longe disso, sei que não é possível tamanha façanha.
Pensei: Aqui há gato!
Ainda por cima aquele M. no meio do nome e do apelido gerava-me desconfianças, admitia que era apenas o meu instinto a pronunciar-se, mas que raio, era o meu instinto, que já me tinha safo o pêlo várias vezes!
Pus-me a investigar.
Descobri que o GMT tem 3 filhos e é professor!
Não se trata sequer de um escritor profissional.
Comecei a pensar que o homem não era humano.
É que eu tenho 2 filhos e nem uma sebenta conseguiria escrever… em 3 anos!
Continuei a investigação e constatei que a sua obra se encontra como que dividida em núcleos: a poesia, os livros pretos e os “senhores”.
Escreve também os chamados “Bloom Books” onde opina sobre as fronteiras dos vários géneros literários, no fundo, livros de investigação.
Averiguei ainda que ganhou, com o romance “Jerusalém”, ao que parece sem nunca lá ter posto os pés- o Prémio do Círculo de Leitores e que esse é o “seu livro mais forte”.
Cada vez mais curioso, meti pernas ao caminho e fui à Bertrand comprar não um , mas dois livros do GMT.
Comecei pelo que percebi ser a sua literatura mais leve.
Nunca pensei é que fosse tão leve!

Alcancei na estante “O Senhor Brecht” que me custou 10,40 € e tem 72 páginas, isto é, uma média de 0,14 € por página e “ O Senhor Juarroz”, mais 72 páginas, pelo mesmo valor, a mesma média por página.
A média por página estava a atirar para o carote, mas a literatura não se vende ao peso e dias não são dias, e blá, blá, blá.
Paguei e atirei-me de imediato à leitura.
Despendi 9 minutos para ler a primeira “obra” e 13 minutos para ler a segunda.
Tenho que ser totalmente honesto e dizer que a avaliar pela leitura curiosa e atenta que fiz dos dois “livros”, Gonçalo M. Tavares, não é um escritor.
Pelo menos no sentido clássico do termo.
Com a mesma honestidade tenho que dizer que constatei perplexo a seguinte aritmética:
No “O Senhor Brecht” das 72 páginas, 3 são o índice, 2 são a biografia do autor, 2 são publicidade a outros livros e 13! Sim 13! São páginas em branco!
Restam 53 páginas!
A média do custo por página passa para uns arreliadores 0,20 €.
Acontece que nestas, encontramos ainda 4 páginas com apenas duas linhas, 4 com apenas 3 linhas e 9 com apenas 4 linhas escritas!
Restam, meus amigos, 36 páginas, das quais só uma ou duas integralmente ocupadas pela escrita do espertalhão.
A média por página passa para um valor obsceno!
No “O senhor Juarroz”, que apesar de uma maior densidade linguística me pareceu menos estimulante e mais pobre que o pobre do Brecht, também se contabilizam 32!, sim, 32! páginas em branco.
Nem o João César Monteiro faria melhor!
Perante este cenário devastador, pouco vontade resta para analisar a escrita propriamente dita. O leitor sente-se espoliado e já não consegue produzir uma opinião isenta.
Ainda assim, arrisco dizer que GMT, se é escritor - a crítica da especialidade parece achar que sim - é um escritor de literatura infantil.
O problema é que se trata de literatura infantil que usa e abusa das hipérboles o que dificulta sobremaneira o entendimento das histórias por crianças.
Mas a crua realidade é que ambos os “Senhores” são escritos de forma pueril.
É uma escrita inovadora? Mágica? Diferente?
Quem ler estes dois livros perceberá que GMT não é inovador.
GMT sem o saber é um bloguista, o que ele escreve são posts.
E por isso o escolhi para iniciar esta rubrica em honra de todos os bloguistas nacionais.
Bem sei que este postal, já vai gigante, mas não resisto a deixar aqui duas pérolas do bloguista GMT do seu “O Senhor Brecht”:
ESTÉTICA
Uma mulher gorda que queria perder peso, chegou ao médico e disse: Corte-me uma perna! ( Isto é 1 página ).
OS POETAS
Os poetas, numa enorme fila que ultrapassa já a esquina do quarteirão seguinte, aproveitam o momento de espera para preencherem cuidadosamente o formulário. ( Isto é outra página ).

Palavras para quê?
Mais vale cair em graça do que ser engraçado!

Publicado por Patrick Blese às 05:06 PM