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outubro 18, 2005

Evocação de um amigo muito especial

(0317)
Porque hoje se falou dele, e porque jamais o esquecerei, volto a lembrar Nuno Baixinho.
Post escrito em 10 de Janeiro de 2005 e agora revisto e actualizado.

O Nuno Baixinho fez parte de uma fase da minha vida que há muito se encontrava encerrada no meu baú de memórias e recordações.
Escrevi, no tempo do Senhora do Monte, um post sobre este grande amigo a propósito do Guedes ter falado de conspirações na casa do Elevador da Bica e de eu me lembrar de muitas mais e não só dessas.
Recordo-me do escritório da Rua Padre António Vieira, de uma cave na Praça do Chile, de uma casa ao Panteão, de um Palácio ao Rato, da Flamenga, de um escritório no Conde Redondo, das instalações da Associação Académica de Lisboa, ao Areeiro e de outras mais esporádicas.
Os locais eram vários, e para todos os gostos, indo desde o piolhoso até ao faustoso.
Alguns dos protagonistas, e nossos interlocutores, eram gente ilustre, daqueles que não se pode dizer aqui o nome, daqueles que, ainda que o fizesse, ninguém acreditaria em mim, nem em nós.
E os conjurados éramos nós.
E estávamos ao ataque de tudo, de Partidos, de Universidades, de Reitorias, de Associações Académicas.
E o mais estranho é que, sendo nós tão jovens, todos pareciam estar genuinamente interessados em conspirar connosco.
Acreditávamos que íamos mesmo mudar o mundo.
Os conjurados eram numa primeira linha, o Mário, o Pedro, o Stélio, mas é preciso, com rigor, falar do Nuno Marques da Silva, do Nuno Baixinho, do Carlos Gonçalves e da Inês Mauritti.
Era um grupo que se completava de forma surpreendente.
Ainda hoje acredito que devíamos ter seguido por outro caminho.
Havia uma segunda linha, constituída por aqueles que não alinhando nas frentes todas, eram gente inteligente e bem preparada, estavam perto da decisão global, o Rui Rocheta, o Tó Martins, o Filipe Malheiro e a Carmen Henriques.
E não me posso esquecer dos clássicos: o Paulo Guilherme, o Toni Duarte, o Edgar de Almodovar, o Miguel Varela, o Xico Ribeiro, o Xico Lopes, o Figueiredo, o Mano Henrique, o Rui Pereira, o António Mauritti, o Gualter, o Eisele, o Júlio Serras, o Jordão, o Artur Amorim, o Carlos Raposo, o Pedro Isidoro, o Mário Rui, o impagável Julinho de Barcelos, o Batata, a Sofia Drummond e tantos outros que podia ficar aqui a noite toda.
Crescemos muito, ganhamos muito, levámos e demos porrada, falámos com Presidentes, Líderes da Oposição, Ministros, Secretários de Estado, Reitores, Presidentes de Câmara e todos os que connosco queriam falar.
Fomos a programas de rádio e televisão, discursamos para 10, para 50, para 100, para 500 pessoas.
Em vez de um simples curso fizemos vários, em simultâneo.
Não me arrependo de nada do que fiz!
Se pudesse fazia tudo outra vez!
Penso falar em nome de todos!
O tempo ajuda a relativizar a importância das coisas e hoje olhando para trás admito que levávamos as coisas demasiado a peito.
Mas a vida não é também isso?
Não há um tempo para tudo?

Se pudesse recuar, só pedia que se pudesse alterar uma coisa.
Um facto.
Um acontecimento.
Uma circunstância.

Nuno Manuel Anão Baixinho merece que lhe faça aqui, neste modesto reduto, muito singelamente, uma evocação especial.
Era estudante de Relações Internacionais e à noite ajudava o pai, proprietário de um táxi na margem sul.
Era brilhante no domínio das várias matérias da diplomacia, da política internacional e das relações internacionais.
Tinha uma forte capacidade de argumentação, era seguríssimo nas suas tomadas de decisão e forte no contraditório directo.
Aprestava-se para ser um académico de excelência, um diplomata de excelência, um político de excelência, qualquer coisa, que ele quisesse, de excelência.
Era daqueles que se distinguia entre mil.
Tinha uma faceta de tolerância que me agradava e que penso é apanágio de quem se pensa e sente, intelectualmente, num patamar superior.
Uma vez, uma única vez, "zangou-se" comigo.
Naquela altura, como agora, os políticos, mesmo os juvenis como nós, tinham a mania de falar no nº2, no nº3, no nº4 e por aí fora.
Entre nós, não me perguntem porquê, convencionou-se que eu era o chefe da banda.
O nº2, era o Nuno Marques da Silva, e depois por aí fora, o Pedro, o Mário, o Stélio, este, aquele, por aí fora até para aí ao nº 500 que a gente não fazia a coisa por menos.
Os programas eleitorais pareciam as páginas amarelas.
O Nuno Baixinho, era visto pela entourage, para aí, não sei porquê, como nº 10, ou 11,ou 12, não sei.
Isto só se explica porque, provavelmente, a hierarquia era inversamente proporcional ao talento.
Caso contrário ele seria o nº 1.

Um dia pedi-lhe para falar com ele, a sós, numa sala isolada, dentro da Universidade.
Ia começar mais uma batalha eleitoral.
Disse-lhe, sem mais delongas: “ Baixinho, não falei com ninguém, mas quem vai liderar a corrida, desta vez és tu. Para mim, tu és o melhor, vais ser tu! Tu és o candidato!”
Ele olhou-me, tranquila e serenamente, e fumando cigarro atrás de cigarro, explicou-me porque tinha que ser eu a concorrer.
Foi uma conversa muito interessante e emocionada que ainda hoje, passados 13 anos, sou capaz de lembrar palavra por palavra.
Terminou agarrando-me pelos colarinhos e do alto dos seus 1,90 cm de altura – apesar do nome – abanou-me, dizendo-me para eu não voltar a abordar o assunto e que estaria comigo para o que desse e viesse!
Infelizmente não viveu o suficiente para assistir à nossa vitória.
O coração do Baixinho resolveu parar de o manter agarrado à vida no fim de mais uma noite de conjurados na Rua Padre António Vieira.
Nessa noite tínhamos saído de lá com os olhos a brilhar.
Estávamos a dar passos grandes. Muito grandes.
Tínhamos estado com um Reitor, que já não era Reitor, mas ainda era Reitor!
Parece confuso, mas era exactamente assim!
Íamos derrubar um Reitor e colocar lá outro!
Imaginem a excitação!
Com o desaparecimento do Baixinho, todos sofremos muito.
Eu chorei copiosamente pela primeira e única vez na minha vida.
Existem muitos homens que comem, falam, olham, mas estão mortos.
Mais mortos que os verdadeiros mortos.
E outros que morreram, mas permanecem vivos.
Nuno Manuel Anão Baixinho está neste número.
Pelo menos para mim que muitas vezes penso nele.

Em meu nome, do Pedro, da Inês, do Mário, do Stélio, da Sofia Drummond, do Nuno Marques da Silva, do António Mauritti, do Pedro Algarvio, do Rui Pereira, do Luís Tomé, e de todos os outros, quero envolver-te, grande Baixinho, num abraço gigante.


Publicado por Patrick Blese às outubro 18, 2005 12:30 AM

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Comentários

Ó meu perfeito comuna, então não descubro que não só estás vivo como tens um blogue?
Um grande abraço do Rocheta

Publicado por: Rocheta às dezembro 9, 2005 01:23 AM

DIXIT.

Um grande abraço para todos.

Todos somos Dinamarqueses.

Publicado por: António mauritti às fevereiro 9, 2006 05:35 PM

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