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abril 26, 2005

José Ferreira Marques, Bichos do Mato, 2003

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bichos do mato.gif
Os romancistas sabem que o tempo joga a seu favor.
Ainda que se tenham 70, 80 ou 90 anos, é sempre possível começar e surpreender os leitores.
Quando começam tarde, o que lhes falta em experiência literária, em ritmo e em cadência, sobra-lhes em memórias e experiências de vida, condições resultantes da vivência e da observação da História.
Não é o que se passa, no entanto, com José Ferreira Marques que tendo começado tarde, mas ainda assim antes dos 60, apresenta uma escrita fluente, com forte ritmo narrativo e de uma qualidade estética indiscutível.
Muito provavelmente escreverá desde sempre mas só agora deu a conhecer ao público a sua veia literária.
Este é o primeiro romance publicado pelo autor e editado pela pouco notória Palimage.
Em Os Bichos do Mato, o autor assume um olhar atento, mas despolitizado sobre a Guerra do Ultramar.
Diria que se trata de uma crónica de guerra, ficcionada, mas amplamente autobiográfica – o que é absolutamente corrente e vulgar nas primeiras obras da maioria dos autores consagrados – já que se baseia em larga medida na experiência de guerra do autor, que fez a guerra na linha da frente, muitas vezes debaixo de fogo.
Trata-se de uma bela história, fluida, excepcionalmente bem escrita, com ritmo narrativo elevado, que capta do princípio ao fim a atenção do leitor.
Com grande acutilância vamos seguindo o percurso do Hilário, do Aníbal, do Romeu e do Martinso autor - e do Capitão Silva.
Apreciei, particularmente, dois capítulos, intitulados: "Duques…"; e "Aguarelas"; onde se fala de Henrique do Vale e da sua família.
É curioso fazer o paralelismo entre esta obra e a primeira de Lobo Antunes, Os Cús de Judas, igualmente baseada numa experiência de guerra do autor e, se o leitor se der ao trabalho de fazer essa comparação, não se surpreenda se no final tiver preferido este Ferreira Marques, àquele Lobo Antunes.
Foi o meu caso!
Este Os Bichos do Mato, merecia figurar no espectro literário português de 2003, no Morro da Sentinela, que como o autor explica numa passagem do livro, era uma posição elevada com um amplo campo de visão.
Mas como também explica mais à frente “ o ângulo de tiro não era o mais favorável”.
O que tenho a certeza, é que este livro, com o Marketing certo e a distribuição apropriada, teria vendido como tremoços!
Vamos lá esperar pelo segundo que, ao que sei, está a chegar.
Entretanto, e atendendo à data, numa atitude verdadeiramente revolucionária, tomo de assalto o A Forma e o Conteúdo, blogue do autor do livro e faço minhas duas fotos que por lá foram editadas e que ajudarão a abrilhantar este post,com duas passagens do livro:
Quedas do Rio Lucala, Angola
quedas do rio lucala.jpg
"O rio multiplicava-se em centenas de cascatas, escorrendo em tons vários de azul e verde. A água parecia nascer das raízes das árvores que se equilibravam entre as fragas. Uma pequena nuvem de vapor pairava sobre a caldeira, humedecendo o ar. O ruído ensurdecia."
Mariponte,Angola
mariponte.jpg
"Picada fora, subindo e descendo, só se ouvia o martelar do motor do unimogue."


Publicado por Patrick Blese às abril 26, 2005 01:50 AM