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março 29, 2005

O Parasita

(0006)
Nos últimos dias polemizei no A Forma e o Conteúdo, com dois distintos comentadores dessa casa, sobre o artigo É lúgubre de Vasco Pulido Valente.
Quero acrescentar o seguinte:
VPV tentou armar-se ao Político mas não passa, nunca passou, nem vai passar, de um mero figurante político e provavelmente essa realidade provocará parte do azedume com que fala do Regime.
Agarra-se à sua sociologia, como se esta fosse fonte de toda a sapiência e dignidade e em vez de tentar interpretar a realidade dos novos ares, diverte-se a promover o processo inverso, isto é, a realidade é que se deverá ajustar às suas ideias e aos seus pensamentos.
Por insondáveis desígnios do destino mantêm-se à tona há várias décadas, a debitar sobre a falência do Regime, detendo um poder mediático e de intervenção só explicado pelo facto das massas alimentarem uma constante necessidade de “sangue”.
Dito de outra forma, como VPV se limita a relevar e elencar problemas e jamais aponta no sentido de uma solução ou de uma medida de aplicação prática que vise alterar a ordem das coisas, arma-se de um discurso cáustico, duro, muitas vezes quereloso e ofensivo e consegue chocar e escandalizar.
Ora todos sabemos o quanto a turba sedenta de sangue aprecia o escândalo, o exagero e a truculência, o que se traduz num magnífico retorno quando chega a hora de olhar para as audiências.
VPV está para a crónica política, como o Bloco de Esquerda está para a cena política, sendo que o cronista é uma versão Old Parr e caneta Mont Blanc, de uma mesma realidade.
Desta forma simples, mas altamente eficaz, o espertalhão VPV vai fazendo pela vidinha e com o talento que inegavelmente possui é visto como uma espécie de aráuto das Crónicas de Escárnio e Mal-Dizer dos tempos modernos.
Mas o problema é mais grave:
Para ele, o destino dos portugueses será sempre trágico, decadente e lúgubre; todos os portugueses são patetas, estúpidos, ignorantes ou analfabetos – e muitos acumulam – excepção feita, claro está, à sua distinta pessoa.
Quando deixa de alvejar o português comum e se concentra nos economistas - aí é que a porca torce o rabo - a sua verborreia inútil aumenta de intensidade, fica com a vista turva e o disparate deixa de conhecer limites.
Se pudesse mandava-os a todos para o cadafalso, talvez permitindo que escapassem os que lograssem debitar, sem pestanejar, o essencial das doutrinas de Comte, Weber, Durkheim, Marx ou Bourdieu, ou que, em alternativa, frequentassem diariamente a Associação Portuguesa de Sociologia.
Para todos os outros, em não os podendo mandar para a guilhotina, vetar-lhes-ia o desígnio da alta e da baixa política, visto que não sabendo sociologia são incultos, burros, ignorantes e ficam reduzidos a seres com capacidade potenciadas para o bricolage.
Isto remete-nos para problemas ainda mais graves:
Há cerca de um mês também no Público, VPV afirmou que o país precisa de mudar de Regime.
Não de sistema, mas de Regime.
Agora com este escrito entendi qual é o Regime que preconiza e percebo a estratégia.
Ele quer desacreditar os partidos, os agentes políticos, a partidocracia e no limite minar os alicerçes do Regime Democrático.
Segundo ele, os carreiristas, os caciques e os políticos profissionais, não servem – e neste aspecto estamos de acordo – mas ficámos agora a saber que, quem triunfa na sociedade civil, tem provas dadas, tem curriculum e obra inatacável, existe e é, independentemente da política e dos partidos, também não serve.
Então quem serve?
Esta é que é a questão:
Então quem serve?

E o problema é que, do que se supõe das suas diatribes escritas, não servindo ninguém, VPV coloca em causa a sociedade civil e os fundamentos da Democracia.
Ele não tem coragem de o dizer, por manifesto receio de perder a sua tribuna, mas só falta ultrapassar essa barreira para a máscara cair definitivamente.
O que ele realmente quererá dizer e não diz, não será que, segundo ele, o povo é completamente ignorante e inculto e por via disso, a democracia directa ou representativa não serve, porque não pode ser o “portuga”, esse bando de energúmenos, a decidir quem nos governa.
Quando esta máscara cair, quem o lerá?
VPV passará a mito com pés de barro.
Nesse dia passará a ser um parasita.
Nada mais!

Publicado por Patrick Blese às março 29, 2005 07:33 PM